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26 de agosto de 2010
Leve 2 e pague 1
por: Thomas Hahn


Deve ser culpa de meus neurônios cansados, mas não tenho a menor lembrança de quem foram os candidatos a deputado – estadual e federal – em quem votei há quatro anos. Em compensação, sei ainda menos em quem votarei em outubro vindouro. Vou mais longe: nem sei quem é candidato, quais opções tenho, que escolhas estão ao meu alcance.

Por outro lado, sei em quem não devo votar. Os jornais, que antes sabiam separar as coisas, misturam páginas políticas com policiais. Relatam escândalos e mais escândalos, mas não informam o que de bom foi pensado, proposto ou feito por alguém do Legislativo. Talvez por não haver nada de bom a reportar – mas custo a acreditar. O fato, por demais conhecido, é que boas notícias não vendem jornais. 

Lembro-me de que, ao chegar na Sampa em 1964, fiquei maravilhado com o caderno do Estadão que falava sobre o interior do Estado, suas cidades, seus programas, seus feitos. Foi assim que conheci, antes de percorrer estradas, este poderoso canto do planeta. Hoje, não mais. As notícias são paulistanas, nacionais ou internacionais; o Estado sumiu, e, com ele, seus políticos.

Assim fica difícil votar. Ainda mais se nos lembrarmos que nossa governança é feita por meio de Medidas Provisórias e Decretos, tirando do Legislativo suas mais importantes atribuições e deixando-lhe tão somente a função de despachante, junto ao Executivo, de interesses regionais.

Se o seu filho quiser ser adestrador de chimpanzés, cobaia de bomba atômica ou criador de jogos eletrônicos, deixe. Se for realmente vocacionado, dará certo na vida. Agora, não permita que ele seja profeta; corte sua mesada, mande-o morar com uma tia solteirona no interior do Piauí, o que for necessário, mas não deixe. Profeta é odiado em vida – principalmente quando acerta nas profecias.

Li recentemente o discurso de formatura proferido pelo presidente da universidade de Yale (a formatura lá é em maio). Disse o sábio reitor que a democracia está a perigo. A causa apontada é que o alto custo da campanha faz com que o dinheiro seja o grande diferenciador entre vencedores e vencidos. E que dinheiro grosso não vem de graça. Daí que os eleitos têm sempre o rabo preso, pois sem campanha não há voto, sem dinheiro não há campanha, sem doador com sua própria agenda não há dinheiro.

Pois eu, modestamente inserido nesta coluna, venho falando a mesma coisa há séculos. Tá bem, séculos, não, décadas. Sou, portanto, um protótipo de profeta. Não o suficientemente profético para ser apedrejado por turbas furiosas, mas o suficiente para merecer algum tipo de reconhecimento. Como, por exemplo, ser convidado para ser presidente da Yale University. O que não aconteceu.

O mundo é injusto.

Duas míni-crônicas pelo preço de uma.

Mas só em Agosto.




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