20 de maio de 2010
Cicloturista da região fará viagem pela América do Sul
por: Eliane Santos
Fábio dos Santos (Binho) mora atualmente em Taboão da Serra e este mês fará sua 8ª cicloviagem, dessa vez pela América do Sul. Para ele, ser cicloturista não é apenas praticar um esporte ou ter um hobby, é um estilo de vida. Ele tem 31 anos e desde os 17 viaja pelo Brasil de bicicleta, já foram sete viagens que somam 12 mil quilômetros rodados e agora parte para sua maior aventura: uma expedição pela América do Sul em 365 dias. Serão 23 mil quilômetros percorridos em um ano usando a bicicleta como meio de transporte.
Para quem nunca ouviu falar em viagens de bicicleta parece loucura, mas trata-se de um jeito peculiar de conhecer o mundo. É mais que uma viagem no estilo mochileiro, é desafiar os próprios limites, encarando o frio, o vento, o calor, o sol e a neve. Os cicloturistas vivenciam cada cultura e cada cidade com um olhar diferente.
Binho nasceu em Tupã, interior de São Paulo, e viveu grande parte da sua vida no Embu. O contato com o cicloturismo ocorreu aos 10 anos, quando descobriu que seu vizinho viajava de bicicleta, se encantou com a história e pediu para ir junto. O amigo Willy então passou a treiná-lo, tanto fisicamente quanto o incorporando ao estilo de vida aventureiro. Com isso, aos 11 anos, começou a acampar com o amigo na Serra do Mar. E desde a primeira viagem nunca mais parou, as duas primeiras foi com Willy, depois começou a viajar sozinho.
O aventureiro está há cerca de dois anos planejando a viagem pela América do Sul. Trabalha como autônomo, pois um emprego fixo não lhe permitiria fazer as viagens, e tem total desprendimento das coisas materiais. Morava sozinho em casa alugada e há um ano e meio, já se preparando para a viagem, foi morar com um amigo. “A primeira etapa foi sair da minha casa, doei alguns móveis, vendi outros, tinha que me livrar da estrutura de casa, minha casa vai ser a bicicleta”.
Conhecido pelas crianças como “tio formiga”, Binho trabalha como recreador em festa infantil e monitor em excursões e na Cia dos Bichos. Procura sempre transformar as aventuras pelas quais passou em aulas, passando os valores que aprendeu durante as viagens para as crianças.
A cicloviagem pela América do Sul
Denominada “América do Sul no olhar de um cicloturista”, o ponto de partida da aventura será no Embu no dia 30 de maio. A primeira parada será em Goiânia, seguirá até o Parque Nacional das Emas, ainda em Goiás, depois para o Parque Nacional das Chapadas dos Guimarães, no Mato Grosso, de lá segue para o Acre, onde cruza a fronteira entre Brasil e Peru, atravessa a Cordilheira dos Andes, passa por cidades da Bolívia, Chile, Argentina, Uruguai e retorna ao Brasil pelo Rio Grande do Sul. O cicloturista fala um pouco o Inglês para driblar as fronteiras da língua.
O roteiro foi feito pensando nos principais pontos turísticos da América do Sul. O ciclista irá pedalar durante o dia e à noite acampará em postos de gasolina. Em algumas cidades, irá se hospedar utilizando principalmente o sistema do Albergues da Juventude, uma proposta internacional que promove o intercâmbio cultural oferecendo hospedagem com um preço mais em conta.
Ao sair para uma expedição, já tem definido em quais cidades ficará por alguns dias para conhecer, além disso, essas paradas servem para fazer manutenção da bicicleta, lavar roupa, descansar e atualizar o diário de bordo. Para os cicloturistas, o registro da aventura é algo muito importante, dividir com o mundo as dificuldades e recompensas da viagem é algo que a internet proporciona atualmente e com Binho não será diferente: manterá o seu site atualizado com as últimas aventuras.
Custos da cicloviagem
Segundo o cicloturista, são gastos diariamente entre R$ 35 e R$ 40. Para essa viagem, ele diz que o ideal seria R$ 1.000 e no mínimo R$ 600 mensais. Conseguiu patrocínio de duas cotas de R$ 200,00 mensais, uma do atelier Zé Figueiredo e outra do Rancho Rio Selvagem. “Para atingir os R$ 600 que calculo como mínimo, terei que custear os R$ 200 restantes, fora a estrutura”, afirma.
O cicloturista conseguiu uma máquina fotográfica de patrocínio da ATM Turismo e obteve desconto para o desenvolvimento do site. Tentou apoio para uma nova bicicleta, mas não conseguiu e acabou ganhando de presente do irmão. Patrocínios são muito bem-vindos, as empresas interessadas podem entrar em contato com o cicloturista.
Bagagem
Durante as viagens, Binho costuma carregar entre 40 e 45 kg de bagagem, mas nessa, vai carregar cerca de 60 kg. No equipamento estão, além do básico de qualquer viagem, fogareiro, panela, faca, prato e caneca, escolhidos os modelos mais leves possíveis. A comida é comprada semanalmente. Além disso, leva barraca, lona, saco de dormir e isolante térmico.
Cicloviagens
A primeira cicloviagem aconteceu em 1996, o destino foi Blumenau em Santa Catarina. Na viagem de 700 quilômetros para correr a maratona de Blumenau, Binho teve a companhia de seu amigo Willy. Desta viagem ele guarda inúmeras recordações, foi ali que descobriu que realmente podia “subir numa bicicleta, pedalar por uma distância tão grande e ir curtindo pedaço a pedaço” e como uma criança que descobre algo novo, o cicloturista sentiu que era verdade, que dava para percorrer o mundo mesmo, que não era só uma história. “Eu me lembro do pôr do sol, do tom pastel no céu, do frio da noite e do sofrimento da Serra do Azeite”. A dificuldade que Binho enfrentou foi se adaptar à bicicleta, pois fazia dois anos que não pedalava.
O menino de infância humilde nunca teve bicicleta e ganhou a primeira uma semana antes da viagem do amigo Willy. “Aprendi a trocar marcha na estrada, a primeira grande dificuldade foi me equilibrar no meio daquela bagagem toda, mas no segundo dia já estava acostumado”, lembra. Para ele, o que faz alguém fazer uma viagem dessas não é o treino, é a disposição e o espírito aventureiro.
A segunda viagem foi em 2000, em que percorreu 300 km até Curitiba, também na companhia de Willy, porém com uma só bicicleta, enquanto um pedalava o outro corria e cada 10 km revezavam. “Optamos por uma só bicicleta porque queríamos correr a maratona de Curitiba, iríamos chegar mais treinados”, conta Binho.
Depois do aquecimento das viagens em companhia do amigo, o cicloturista ganhou o mundo. Fez a primeira viagem sozinho em 2000, foi ate Corumbá no Mato Grosso do Sul, cerca de 1500 km. Voltou de ônibus. Em 2002 viajou até Manaus, um trajeto de 3.200 km, com duração de 43 dias. “Levei um mês de São Paulo a Belém do Pará e mais uma semana de barco até Manaus e voltei de avião”.
Dois anos mais tarde, Binho fez o circuito das chapadas brasileiras, visitou a Chapada Diamantina na Bahia e a Chapada dos Veadeiros em Goiás, de lá seguiu até o norte de Minas e voltou de ônibus. Em 2006 a cicloviagem foi até Paraguaçu Paulista e em 2008 até Goiânia para passar o Natal com os pais. Essas duas últimas viagens, o cicloturista fez o trajeto de
ida e volta de bicicleta.
Encontros nas estradas
Com 12 mil quilômetros rodados em diversas cidades brasileiras, Binho encontrou muitas pessoas, passou por apuros e enfrentou dificuldades. Para ele, a maior recompensa são as paisagens que viu e o encontro com diferentes pessoas pelo caminho.
Binho conta, aos risos, que há uma sequência de perguntas que geralmente as pessoas lhe fazem nas estradas: de onde ele vem, para onde vai e se ele é louco. Ele diz que a grande maioria das pessoas tem disposição a ajudar e que há muita solidariedade na estrada. “Em todas as minhas viagens, somente quatro ou cinco postos de gasolina me negaram montar acampamento, geralmente são muito solícitos e arrumam os melhores lugares”. Segundo ele, o posto serve também como segurança. “Por onde passo faço questão de ser observado, é uma certa defesa, como eu não tenho apoio, o apoio é a própria estrada”, afirma.
Para ele, o pôr do sol do Rio Amazonas é uma das imagens mais marcantes “a imensidão do mar com floresta dos dois lados e na frente, a quilômetros de distância, uma pequena faixa verde”. E para quem pensa em viajar de bicicleta, o cicloturista aconselha “comece!” e continua “pedalar faz parte da minha vida, quando eu estou em cima da bicicleta numa viagem, sinto que minha vida vale a pena, é lá no meio da aventura, mesmo com as adversidades, tendo que improvisar as coisas, é o que torna a vida mais vida” E explica por que prefere viajar sozinho “eu tenho uma coisa minha, de me encontrar nas minhas viagens, encontrar o mundo que para mim é um presente que Deus nos deu, estou indo e conhecendo o meu presente”.
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